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sexta-feira, 27 de abril de 2012

CENTÉSIMO POST


Este blog do Pipe Show, que já transmitiu dois campeonatos da disciplina PIPPE, não está caindo pelas tabelas. Doch, doch! Estamos bem no meio de um semestre no curso de Pedagogia. E o blog é o veículo de informação, inclusive para quem perder aula. E queremos ver todas as 36 alunas chegar às quartas de final! Sem disputa de pênalties, pois há lugar para todas. Todas podem ser aprovadas, desde que... o de sempre: presença e notas. Não inovamos tanto assim. Seguidores e seguidoras, tem mail no box do pippe.



Na aula de hoje, acertamos coisas de bastidores e não vamos cansar a beleza de quem não faz a disciplina. Só algum relato, tipo la lengua española. Nossas caras alunas precisam perder o medo de ler textos em español e english. Precisam começar e pronto. E não é por causa de nosso programa, não. Vai ser importante a vida toda, inclusive para uma paseo en Buenos Aires, por supuesto. Há palavras bonitas em espanhol, como "salga" e "valga", mas não é tão fácil sacar que ali estão os verbos sair e valer, flexionados nessa forma preciosa. Mas temos que encarar, com dicionário e insistência. Espanhol é a língua mais próxima de nosso português. E lembrem-se que entender um português falando é mais difícil que ler um texto de filosofia em espanhol. Concordam? Já tivemos prezidents d Prtugall com legendas, na TV do Brasil...


Improviso. Ora, eu não iria ajuntar meus papéis e voltar pra casa, só porque o grupo não se achava em condições de apresentar o texto em espanhol. De boa. Então, começamos a apresentar o outro, também em espanhol. Em vez de ouvirmos uma exposição sobre "Sócrates, la filosofía e su enseñanza", de Walter Omar Kohan, vimos as primeiras páginas de "Enseñanza filosófica: notas para la construción de un campo problemático", de Alejandro Cerletti. Coloquei no quadro umas idéias centrais e comentamos o tema e a abordagem, saindo também do assunto, como é de nosso feitio.

E por falar em feitio, contamos uma historinha rara, sobre uma aula bem bolada. Quem leciona há 30 ou 40 anos, sabe que não é todo dia que vem uma sacada, uma encenação memorável. Eu poderia me lembrar de uma meia dúzia de aulas que receberam um apelido, tipo a "aula do pé de manga", "a aula dos besouros", etc. Teremos tempo de contar outras histórias. A de hoje é esta, com cara de sugestão aos novatos:
Era um curso de estética para alunos e alunas de artes, música, filosofia e alguns curiosos. Levei para a sala quatro ou cinco paletós ou blazers de vários tamanhos e cores e os entreguei a alguns alunos e alunas. Não disse nada. Começaram a vestir cada um, abotoar, desabotoar e trocar as peças entre si. E comentavam se a roupa estava apertada ou frouxa, se era cafona, bonita, confortável, etc. Além dessa "performance", levamos café em garrafa para a sala de aula. Depois escrevemos no quadro frases como "a estética deveria cuidar também dos ternos, como quando se prova uma roupa no alfaiate e diz que caiu bem ou não caiu" - e também: "a estética deveria tratar também do gosto do café". Só depois, bem depois que comentamos o que parecia evidente ali e experimentado, foi que contei de quem eram tais frases. Mostrei o livro e depois falei o nome completo do "Luís": Ludwig Wittgenstein. 

De novo, a conversa sobre línguas estrangeiras. Se você começa a aula pelo nome do filósofo, pode espantar a freguesia. Se você joga alguns volumes impressos em cima da mesa, desanima a galera. Então, que tal começar pelas idéias, pelos problemas? Claro que nem sempre temos como fazer isso; nem tudo permite uma dramatização. E tem hora que nem mesmo um professor de cursinho consegue rebolar diante de um teorema... Mas em muitos casos, funciona essa seqüência. E estamos falando de alunos adolescentes e jovens. Em conferência para iniciados, cairia mal qualquer coisa além de ler o paper (ops! em inglês aqui, "pêiper", texto para apresentar em evento). 


Claro que um dia, no futuro, vou contar boas histórias dessa turma da pedagogia. Podem apostar, pois é assim que funciona. Ou já posso contar agora? Creio que sim. Então, senta que lá vem história! Eis que este professor estava a criticar a democrática instituição em que trabalha há quase 33 anos. Sucede que um professor aposentado da UFU não pode mais pegar livros emprestados na biblioteca da UFU... E decerto eu estava com cara de lamento e leve revolta, tipo "isso é um ab-surdo!" Aí um aluna dá um bom conselho: "Professor, pra quê biblioteca? Você vai se aposentar e viajar, pescar..." (Ela tem certa razão, mas devo acrescentar aqui que preciso terminar ler de o Ulysses do James Joyce. Na verdade, vou ter que voltar várias à biblioteca, já que não poderei levar pra casa. Que nem um cidadão comum, irei à biblioteca pública da UFU e... vou  retomar do início, pois já me esqueci do que se passou até o meio-dia do Bloomsday, naquele romance de 765 páginas...)


E também falamos sobre perguntas inteligentes de crianças e do cuidado que devemos ter para não criar escrúpulos na criança. Exemplo: evitemos falar de "pecado", pois há outras maneiras de ensinar que é bom fazer o bem. E não funciona dizer a um menino de cinco anos que ele é machista. De repente, ele gosta da idéia e começa a ser grosseiro. A mãe poderia corrigir, de boa, seu inteligente garoto, sem inibir sua capacidade de perguntar e inventar. Exemplo: "Querido, a mamãe às vezes sonha de noite, quando dorme. Mas de dia, acordada, ela pensa. E com o seu pai é assim também: ele também pensa e sonha. Homens e mulheres pensam e sonham..." (Agora, cá prá nós: a outra conversa do menino, de apagar o sol com um enorme balde d´água, é mesmo coisa de filósofo pré-socrático... Tinha que estar no volume de Kirk e Raven!)

Tem mais coisas sobre a aula, mas o tempo passa e agora, daqui em diante, eu só estou fazendo cera, pois quero inteirar 100 fotos de caixas postais alemãs aqui, para marcar a centésima postagem.


Além do que, enviei email para a lista da turma, acertando pontuação de tarefas e o programa de exposição das próximas aulas. Vamos expor os textos do dossiê sobre ensino de filosofia, que saíram no número 44 da revista Educação e Filosofia e podem ser lidos de graça no site www.seer.ufu.br

E vejam em breve aqui: 101 posts pra você ler antes de, pois vai que...


sexta-feira, 20 de abril de 2012

COMO É QUE SE ENSINA ISSO?



Aqui estamos contando o que vai rolando na disciplina Filosofia, oferecida ao curso de Pedagogia, na UFU. Imaginamos, com algum conhecimento de causa, que as alunas terão muitas aulas e leituras de f/e, ou seja, de Filosofia da Educação. No plural, pois há inúmeras filosofias da educação (e não precisamos inventar mais). Sendo assim – e parece-nos que assim é - , vamos dedicar algum esforço e tempo na outra área de confluência: e/f, ou seja, Ensino de Filosofia.
Eis aí uma situação real em que filósofos e educadores têm que se entender: a filosofia pode ser ensinada, ao contrário da insinuação contrária do camponês da anedota. E daí cabe perguntar: como é que se ensina isso?
Ora, não é necessário que aquele que ensina filosofia precise saber “o que é filosofia”, de maneira definitiva, completa, fechada. É possível que um cara que não sabe nadar possa ensinar outro a nadar, pois ele sabe como se nada. E poderíamos trazer outros exemplos desse naipe. Por seu lado, aquele que quer (ou deve) aprender mais sobre filosofia já sabe sempre algo sobre filosofia – e não vai nunca partir do zero. E nem nadar no seco.
Meu 0,1 (um valor positivo diferente de zero, mais que nada): a pergunta muito comum entre calouros da filosofia “viemos aqui para aprender a filosofar ou para aprender filosofia?” não chega a ser uma falsa questão, improcedente; faz sentido. Todavia, a pergunta mesma não é nem filosofia, nem filosofar; é meta-filosofia. E reconhecer isso é um grande avanço.

UM ESCÂNDALO, DOMESTICADO
No primeiro dia de aula, descobrimos que as 36 alunas desta turma não conheciam a revista Educação e Filosofia. Tínhamos que resolver logo essa carência, pois esse periódico acadêmico de alto nível, produzido na UFU, é nosso orgulho, resultado de quase 30 anos de muito trabalho. E mais ainda: uma prova viva de que a colaboração entre educação e filosofia é um mais que uma questão acadêmica; é um resultado do trabalho de profissionais dessas duas áreas.
Este professor fala com satisfação dessa revista, que ajudou a criar e a manter. Foi diretor dela, revisor, tradutor, membro do conselho. Foi e ainda é lá colaborador – com vários artigos e resenhas publicados – e parecerista. Agora, resolveu parcialmente a curiosidade das alunas, ao doar a elas 18 exemplares de números diversos, que tinha repetidos em seu acervo. As que ainda não ganharam um exemplar – além das demais colegas e de toda a humanidade letrada – poderão ler a revista online e de graça.
NA ILHA – Tivemos duas aulas na Vila Digital do bloco 3Q. Aí pudemos ensinar e aprender como acessar essa revista e outras tantas. Simples e de graça. Entre no site WWW.seer.ufu.br
e procure a revista Educação  e filosofia. Escolha o último número publicado ou entre em “anteriores” e localize por ano, volume e número. Depois, escolha pelo título um artigo e clique à direita em “PDF”. Pronto. Abrir e ler.
Assim, hoje, chegamos ao volume 22, número 44, de 2008. Esse número merece a capa dourada, de fato, pois é o sonho dos editores: um número temático, um dossiê sobre o ensino de filosofia.
Já sabíamos há 30 anos que só com a pesquisa poderia manter a revista. E agora vemos que o mundo da filosofia tornou-se mais e mais organizado e produtivo, com mais verbas e oportunidades, mais cursos de pós-graduação, sobretudo nas universidades públicas. Assim, esse dossiê foi possível depois do trabalho de um GT (ou dois?) ligados a nossa ANPOF (Associação Nacional de Pós-graduaçao em Filosofia), ou seja, o número 44 registra a discussão de um grupo orgânico, que tem uma discussão amadurecida.
Nas próximas duas ou três aulas, vamos apresentar e discutir os seis artigos do dossiê, cujos autores são: Odilio Alves Aguiar, Alejandro Cerletti, Sílvio Gallo, Desidério Murcho, Gonzalo A. Palacios  e Walter O. Kohan. Em breve, falaremos dos títulos e conteúdos.
Dois dos artigos estão em español... E queremos encorajar as alunas a ler e entender essa lengua hermana. Podem apelar para tradutores automáticos e dicionários online. E não será preciso traduzir todo o texto. Basta lê-lo todo e fazer um roteiro para o dia da apresentação. E é bom que as alunas queiram planejar para que até o final do curso possam ler também em inglês. Sim, caras alunas, treinar a competência em alto estilo.

SEGUIDORAS – Aproveitamos a visita ao laboratório de informática também para incentivar mais uma vez a visita a este blog. Motivação: cada aluna que se inscrever como seguidora do blog vai ganhar 15 pontos (em 100, do semestre). Boa idéia, não? Aos poucos, vamos aumentando o número de seguidores e visitantes. E esperamos manter o blog depois do fim deste semestre letivo, que já é o terceiro – antes, com o Pippe, e agora na Pedagogia. Novos seguidores são bem-vindos, também de fora da escola.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

MAS O QUE É FILOSOFIA MESMO?

Sejam bem-vind@s à filosofia! Talvez a uma das tantas filosofias. Pior: à minha visão (im)pessoal e transferível filosofia. E nem precisam limpar o pés.

No mês de março estivemos a distribuir amostras grátis: alunas, aqui está uma provinha da minha filosofia – o ensaio. Deu mais ou menos certo. Isso equivale a dizer: saiu, como sempre acontece, meio errado. Mas é bom que a insatisfação seja explicitada. Digam, se for o caso: ainda não entendi, ou entendi e não concordo, não gostei, etc. Pois ainda temos muitas aulas nestes próximos três meses. Depois, direi: fui.

Gostou? Então leia mais.


Sempre tem gente querendo saber: o que é filosofia mesmo? Diferente talvez das perguntas: ...mas o que é mesmo a filosofia? O que é de fato a filosofia? Tanto faz acrescentar essa ênfase ou não; eu não vou começar a resposta com um típico “Na verdade, a filosofia é...” Pois sempre estivemos na verdade. O café mesmo é diferente do café misturado, mas a filosofia pura não existe: a mente pura é a pura mentira!
Tudo bem, vocês se cansaram do ensaio e querem o show, com gravação de DVD e tudo. Vamos lá. Ainda no quadro negro, escrevemos “filosofia” e destacamos “filo+Sofia”. Sofia é sabedoria. Usamos palavras compostas, como filantropia, hidrófilo, cinéfilo, para sacar que filo é amor,  amizade. Daí que filosofia tenha sido entendida como “amor à sabedoria”. Não é a própria sabedoria? Não resolve muito, mas é um rótulo tão bom quanto geografia e geologia – que nunca dizem tudo, mas servem pra distinguir uma área da outra. Os funcionários do protocolo e da biblioteca sabem muito bem para onde encaminhar os envelopes e os livros: departamentos, estantes. Senão: de volta ao remetente.

Agora, para atender pedidos, eu trouxe para a sala de aula duas definições de filosofia. Uma complicadíssima (a)e outra legível (b).

(a)  Filosofia é ontologia fenomenológica universal, que parte da hermenêutica do estar-aí, a qual, como analítica da existência, amarrou o fim [a ponta] do fio condutor de todo questionamento filosófico, ali de onde se origina e para onde conduz.” (p. 57)

A frase é de Martin Heidegger, citada e comentada pelo caro mestre Ernildo Stein, em seu muito elogiado livro Seis estudos sobre Ser e Tempo. E “Ser e tempo” é o título mais conhecido de Heidegger, que morreu em 1976. Na sala de aula, desmontei um pouco essa bela definição complicada. Um repeteco da explicação não vai funcionar aqui. É claro que o livro de Stein comenta e situa essa frase. Por exemplo, ele destaca o caráter circular dessa definição, mas como muitas definições boas são as circulares, chega-se com isso a noção de “boa circularidade”, o oposto do “círculo vicioso”. E o bom círculo é o círculo hermenêutico. Compreendemos algo porque já estamos compreendidos em algo, há algo a ser compreendido, etc. Mas essa frase não foi trazida com a intenção de encerrar a conversa, tipo: vocês querem uma definição bonitinha? Então, tomem esta e mais esta! (Como se isso bastasse para voltarmos a meu plano inicial , com a exibição do ensaio, ao vivo.) P.S.: tomei a liberdade de sugerir “ponta” em vez de “fim” para o fio condutor, na frase acima, traduzida por Stein. Em alemão, Ende pode ser um e outro, mas... vamos evitar a ambigüidade  e facilitar um pouquinho as coisas para o leitor.


(b)  Quem quiser uma longa explicação do termo filosofia, com um pouco de história e palavrinhas escritas em grego, tipo filosofia... Brincadeira. Isso aí é wingdings e não é grego, mas estou com preguiça de inserir símbolos do alfa-beta. Por exemplo, o dicionário de filosofia do Ferrater Mora, muito bom, em 3 ou 5 volumes, conta que os termos “filosofar” e “filósofo”  surgiram antes do termo “filosofia”. Faz sentido. E era usado para distinguir isso daquilo que faziam os sofistas (mesma raiz “Sofia”, com outro uso).

Mas, já que as alunas costumam achar que filosofia é sempre coisa antiga e de velhinhos-baixinhos-carecas, aqui vem uma quentíssima e recente explicação do que seja a filosofia. E, de bônus, para facilitar a Xerox, uma anedota sobre a figura do filósofo. Pois como dizia mestre Th. Kuhn: cientista velho tem livros velhos, assim como predinho novo tem criança pequena. Ou seja, vi um aluno do mestrado com um livro novo, de um autor novo e pedi para tirar cópia. Para renovar meu estoque. O autor é francês, 62 anos (novo?), e deve estar vivo por aí: André Comte-Sponville (Dicionário filosófico, Martins Fontes, 2003)
O filósofo Comte-Sponville é tão francês quanto
o galã Jean-Paul Belmondô...

A definição começa bem: “Filosofia: uma prática teórica (mas não científica), que tem o todo por objeto, a razão por meio e a sabedoria por fim. Trata-se de pensar melhor, para viver melhor”, etc.


E agora, a anedota sobre o filósofo, que as alunas estão lendo para comentar:

_ O que o senhor faz? – indaga o camponês.
_Sou professor de filosofia.
_Isso é profissão?
_ Por que não? Acha estranho?
_ Um pouco!
_Por quê?
_ Um filósofo é uma pessoa que não liga pra nada... Não sabia que se aprendia isso na escola. (p.251)


No primeiro dia de aula, levei para a sala de aula o livro de entrevistas do jornal francês Le Monde, um bom painel do pensamento nos anos 80, com 20 nomes, quase todos franceses. Além dos desiludidos e malucos, eis um que tem um bom motivo para ser filósofo, o que nega a opinião errada do camponês:

Porque eu sou filósofo?
Por causa de Hiroshima
(Michel Serres)

Ele se pergunta e se responde. Ótimo. Não fiquem esperando um jornalista do Le Monde. E atenção, alunas e leitores que ainda não tem uma grande meta na vida! Vocês podem ir (ou vir) para a filosofia por causa de... Fukushima. E não temos muito tempo, antes de Angra 3, Pré-Sal, Belo Monte...


A rosa radioativa
Estúpida e inválida

(Vinicius e Ney)

terça-feira, 27 de março de 2012

SOBRE VINHOS E BOLACHAS - Uma amostra da velha filosofia que parece loucura ou besteira

Vim por causa do vinho - só pra maiores de idade

Nosso curso é tipo não pague nenhum e leve vários: traremos várias tentativas (e algumas desistências) em nossa tarefa de mostrar às alunas da Pedagogia a filosofia e os filosofantes em ação.

Depois de lermos um ensaio sobre o ensaio, na semana passada encenamos outra achega. Chegamos pela tangente falando das qualidades de algo "que" as alunas não sabiam ainda o que era. Em vez de começar pela nome da "coisa", que não é bem uma coisa, brincamos com algumas qualidades do... vinho? Sim, bebida feita de uvas, ora tintas, ora brancas, que dão vinho tinto ou branco, seco ou suave, encorpado, frutado, etc. Enfim, uma onda danada para falar das mônadas. E fizemos uma leitura salteada de um famoso texto de um certo Leibniz.

Parece difícil, esquisito, sem sentido. Mas, do meio para o fim, começamos a ver onde quer o alemão chegar. Foi um belo passeio, sim. E aqui damos a indicação do texto, que toma umas seis páginas, em 90 parágrafos bem encadeados:

Já no final de nossa aula matutina - sem muito clima para bebidas da Serra Gaúcha - sugerimos um tira-gosto: bolacha! Mas isso era só uma pegadinha, para que as alunas aprendessem mais sobre esse tal de Leibniz, que escreveu sobre as mônadas (tipo bola de natal, sem janela, alma gêmea). E ele também dizia que este mundo é o melhor dos mundos... Pode ser?

Este professor já havia feito uma pesquisa muito original (que não cabe no Lattes, mas e daí?) sobre o filósofo alemão, que virou nome de bolacha. Sim, senhores e senhoras! Podem conferir em um post de nosso outro blog, postado em 24 de setembro de 2011 (no blog filosofodocerrado). Taí. Confiram: 


 Até mais.

Prof. Bento Itamar Borges

domingo, 18 de março de 2012

A VERDADE NA POLÍTICA

UMA MULHER VEM DE NEW YORK PARA FILOSOFAR NA UFU
e este blog comenta uma boa conferência
para as alunas da Pedagogia
e demais leitores

Agnes Heller, filósofa atual
Dona Agnes Heller falou semana passada sobre “política y moral”. Aí alguém ouve a frase anterior e já associa o político à safadeza, ao imoral. Ligação imediata e perigosa, pois o profissional da política não é toda a política: o homem (geralmente velho, branco, rico) que representa seus eleitores como vereador, deputado, senador, também age moralmente quando consegue ser prudente, sensato, ousado, ambicioso, etc. Então, ao ler o título da conferência de Agnes Heller, não deveríamos reagir como telespectadores distanciados da política. Não: “verdade na política” é um bom título e não podemos ficar desconfiados, tipo “política só sabe mentir”.
Dona Agnes Heller veio de Nova York para nos falar na UFU, em evento de Filosofia e Direito. Não voou à toa e anunciou texto novo, escrito pra ser lido em Uberlândia. Beleza de etiqueta acadêmica. E ela disse muito mais que isso: o político (e o jornalista), além de mentirem, também erram, enganam e se enganam. Crianças crescidas que somos, devemos ver a diferença entre mentir de propósito e nos equivocarmos. Acontece também no campo da política. E foi bom ver Heller incluir a imprensa e o as igrejas no campo da ação política (e da mentira). E é claro que a política também persegue a verdade, ou seja, no particular, um político também diz a verdade e eventualmente acerta.

Heller pode falar de cadeira:
verdade e política tem tudo a ver
Dona Heller tem 83 anos e veio tão longe nos falar de tema tão importante. Sua frase final pode ser entendida por todos e poderia mesmo ser proferida por muitos: “Admitir a possibilidade de falhas é a maior virtude de um político e um das maiores virtudes dos cidadãos.” The End. Palmas.
A diferença é o percurso da conferência, que a torna uma peça da filosofia:
a)      Heller compara Cristo e Pilatos. A frase afirmativa “eu sou o caminho e a verdade” é uma revelação de uma religião, ao passo que a pergunta de Pilatos – “o que é a verdade?” – seria uma típica atitude filosófica;
b)      Heller diferencia história e política, pois aquela trata do passado e esta, do futuro;

c)       Heller analisou os opostos da verdade: mentira, erro, engano, equívoco, etc. – e com isso faz um mapa dos conceitos envolvidos para explicar que alguns políticos “não estão mentindo, mas estão errados”;
d)      Heller mostrou a função paralela da retórica nessa conversa sobre a verdade, etc.

Perfeito. A filósofa húngara radicada em NY mostrou bem como é estruturado o discurso filosófico. Eu não sabia quase nada sobre ela, além de sua ligação com seu professor marxista Lukács. Ela não falou dele; investiu mais em Max Weber e citou Kant. E prestigiou outra filósofa muito importante, Hannah Arendt, ao criticar o totalitarismo: não havia política naqueles regimes (sob o qual ambas sofreram  - “tempos sombrios”).
Eu costumo ir aos eventos da filosofia e depois comento com os alunos. Faço isso aqui, primeiro para as alunas da pedagogia, para que tenham mais um exemplo de “como é a filosofia”: viva, atual, provocante, empenhada e diferente de outras “ciências”.
Mas eu eu? Saí do auditório 3Q do mesmo tamanho? Não. Fiquei feliz por ouvir e ver Agnes Heller, que era só um nome. Não esperei o debate e nem a tietagem. Mas apresento aqui às alunas da pedagogia – e demais leitores – algumas interpretação divergentes:
a)      Pilatos quis agir como político prudente em favor de Jesus. A pergunta sobre a verdade não era filosófica e nem retórica; Pilatos poderia livrar Jesus da execução e por isso relativiza, tipo assim “se tudo é relativo, porque você vai morrer por causa dessa verdade? Deixa disso, rapaz...”
b)      A política deve cuidar do presente e não do futuro – essa visão, sim, é coisa da aluna de Lukács, o marxista revolucionário – que queria dirigir a história e a consciência para um certo rumo, etc.
c)       A manipulação da verdade pelos políticos e jornalistas aproveita-se não só da retórica, mas da omissão e de manobras sutis. Um certo canal de TV deixa de mostrar a manifestação em Brasília que vai contra seus interesses privatizantes, por exemplo – e isso não é exatamente “mentir”. Uma esperta manobra é a sinceridade a respeito de coisas menos importantes. Por exemplo, o novo Ministro da Pesca também confessa que não sabe pescar. Os dois anteriores não sabiam “botar isca no anzol”. Simpática essa declaração, sem dúvida. Todavia “ninguém fala a verdade” sobre o papel desse ministério, que deve ser secundário para os peixes, pois o que interessa mesmo é o jogo de poder e a dança das cadeiras, etc.
d)      O tom da frase final da conferência de Agnes Heller é moralmente correto e seria aplaudido pelo anti-marxista Karl Popper: humildade e falibilismo, pois todos podemos errar, falhar (mas ninguém deve mentir – é bom lembrar).


Nossa grande virtude é admitir nossas falhas.

domingo, 11 de março de 2012

FILOSOFIA SÓ PARA MULHERES

PARTE II – LIVROS E ABORDAGENS (para todas as alunas - tenham ou não ido à aula, com ou sem sono, etc.)
CONTINUAÇÃO DO RELATÓRIO DA PRIMEIRA AULA DE FILOSOFIA EM UM CURSO DE GRADUAÇÃO QUE SÓ TEM MULHERES, EM HOMENAGEM AO DIA DA MULHER INTERNACIONAL

Aqui, vamos revirar a mochila levada à sala de aula. Que livros foram exibidos às alunas no primeiro dia? E como encaramos essa tarefa de falar de filosofia em um curso de graduação?
Sobre a “postura”, como diríamos nos anos oitenta: preferimos uma amostragem – ler trechos inteiros de autores relevantes, sem intenções de cobrir todas as tendências e épocas da filosofia e sem mastigar resumos.
Carrossel (tipo “queridos pôneis”, mas não montanha russa de parques perigosos): podemos pegar o bonde andando, ou seja, pular no carrossel enquanto ele gira, ou seja, começar por qualquer ponto da filosofia e avançar ou recuar conforme a necessidade – mas sem sonhar com um regresso infinito a uma época inicial e autêntica, pois isso é criado, etc. (Essa idéia, assim ilustrada com o brinquedo giratório, vem do colega e ex-professor Álvaro Valls).



Sobre e contra o estereótipo do tipo “filósofo escreve coisas difíceis e sem sentido”, escolho por acaso o tema paixão”.
1.    O livro Paixões, que tem Jacques Derrida como autor e é ampliado por longas notas do editor, é mais uma artimanha da indústria editorial (ou gráfica, no caso...) que trata esse autor como mina de ouro sob a chancela do governo francês. Não é fácil conseguir deles a cessão de direitos autorais e não sairia de graça. Aqui, publicam em separata o que antes fora parte de uma coletânea de doze ensaios. E depois dizem, com a maior cara de pau, que esse ensaio ao lado de outros dois, poderia compor uma trilogia sobre o “nome”. E não adianta chiar, caras alunas, pois se alegarmos que tiraram a obra (aliás “obra”, entre aspas... pois nem chega a tanto) do contexto original, esses franceses ensaboadas iriam escorregar para novas perguntas, do tipo “mas o que é o contexto, o texto, o tecido?” e também, claro, “o que é a origem?” Percebe-se logo que não vamos ver nada ou quase nada sobre paixões nesse livrinho de 1993, pois o tema é tratado de maneira oblíqua, atravessada. Derrida e seus seguidores não se importariam com as manobras todas que levassem a aparente desatenção com os gêneros textuais até a de-generação, pois tudo lhes vem a ser pertinente. E quem quiser ver uma boa amostra da “metodologia” de Derrida, que é também seu estilo e sua ontologia, sei lá, veja o livro Do espírito, que em grande parte é sobre o uso de aspas – um sintoma de nossa coragem ou nosso medo, equivalente a cochichar, falar, insinuar, mencionar, gritar... mas não suspirar, pois não há paixão nessas folhas.

2.    As paixões da alma, livro do conhecido Descartes. Aí, sim: todas as paixões e até toda a “natureza do homem”. Claro, do homem separado em corpo e alma. Além da famosa solução de link entre corpo e alma: o plug que conecta (cuidado com a voltagem!) essas duas partes do “serumano” é uma glândula, que fica no cérebro. Aliás, dirá o campeão do racionalismo, que errou feio em cardiologia: as paixões não se localizam nem se produzem no coração, embora esse músculo involuntário sirva para aquecer o sangue – o sangue circula quando esquenta e desce depois que esfria... Nada sobre pulsação e válvulas! Mas a obra vale como listagens de paixões da alma. E alma é psique em grego. E a psicologia, antes de Freud e de Jung e de ratos em laboratório, era uma das áreas da filosofia. Sim, senhoras. Vejam a catalogação dos livros na biblioteca da UFU e no mundo inteiro: os livros de psico levam o número 150, ou seja, uma sub-seção da filosofia, que é 100. Alegria, tristeza, amor e ódio, remorso, admiração, ciúmes e invejas e tantos estados de ânimo e de desânimo (alma, alma) classificados e definidos pelo procedimento da classificação e da definição (deu nisso a dedução). Ora, Descartes não ajuda em transplante de coração e nem substitui o Prozac, mas... continuamos a ler esse gênio do pensamento e das aventuras extra-classe. E podem ver o filme do Rossellini sobre ele, bem ambientado na Holanda do século XVII. E a mulher dele também dá um show de sabedoria, citando centenas de ditos populares.

3.    Hobbes não era um lobo apenas mau. Sobre o livro A natureza humana, de Thomas Hobbes, esse injustiçado por alguns professores de cursinho – negócio em crise depois do ENEM – viva! Viva! - pois não basta repetir que  “o homem é o lobo do homem” (e a mulher, a loba, etc.), pois a frase ficou pela metade. Ele também, que teve influência na política imediata, contemporâneo de Descartes, queria saber como é o homem, sua natureza, já sabendo que somos moldados pelo que somos ao nascer (nato) e pelo que aprendemos – nature mais nurture. Mas esse livro foi parar na mochila por uma nobre razão: eu quis mostrar às moças e senhoras da sala de aula que um filósofo também escreveu coisas leves, teve idéias e soluções como nós temos hoje. Hobbes deixou uma autobiografia em versos, tipo cordel nordestino... Fantástico! E nesse livro sobre a natureza humana, de 1640, encontramos uma feliz analogia com uma corrida de gente a pé, como as atuais maratonas; Hobbes distribui as paixões em uma corrida, de acordo com nossas reações no meio de outros competidores. Muito elucidativa e favorável a meu intuito inicial de tornar mais simpáticos os filósofos de qualquer tamanho.

4.    Que tal lermos um livro só de entrevistas com filósofos? A editora Ática publicou uma série de entrevistas feitas pelo jornal francês Le Monde, com diversos filósofos da hora nos anos 1980 – Filosofias: entrevistas do Le Monde, São Paulo, Ática, 1990. Derrida é um dos entrevistados, mas esqueçam o tema da paixão. E Hobbes jamais teria sido entrevistado, pois esse é um gênero novo, do jornalismo, que só se tornou possível com o desenvolvimento da esfera pública, no século XIX, com a qual nem poderia ter sonhado o monárquico Hobbes. Mas o  livro é bom para dar um panorama da eventualmente excêntrica filosofia francesa, além de dois alemães, meio perdidos ali, inclusive Habermas, meu “objeto” de estudo mais demorado.

5.    Outra maneira interessante de entrar na sofisticada conversa dos filósofos é a obra, da editora Ediouro, é o livro da francesa Anne Amiel, que nos traz 50 grandes citações filosóficas explicadas (1990). Algumas alunas acertaram umas cinco das mais famosas frases, inclusive “penso, logo existo”, “só sei que nada sei”, etc. O lema de Hamlet, na verdade o dilema entre ser e não ser, bem que poderia estar ali, misturado com Heráclito. Mas, essa francesa, permitam-me dizê-lo, ficou refém da seriedade e... não falou de paixão, não trouxe citações sobre amor e ódio – no máximo, passou perto com “prazer” (Epicuro) e “desejo” (Descartes).


6.    O professor também propôs um jeito de apresentar a filosofia. Não trata de temas, nem de problemas, nem de épocas e escolas da filosofia. Não foi por aí, mas pelo “viés” (outra gíria da pedagogia dos anos enta) do gênero literário. Está esgotada a primeira edição de seu livro Ensaios filosóficos e peripécias do gênero (Caxias do Sul, EDUCS, 2006, 149 p.), mas não fiquem tristes, pois enviaremos por email um arquivo com o primeiro capítulo, para comentários na próxima aula. Que tipo de texto os filósofos escreveram e escrevem e o que há de interesse filosófico nessas opções? Você tem que escrever uma monografia para obter o grau de mestre ou doutor. E não levam muito a sério quem escreve ensaios... Mas será que pensamos enquanto escrevemos coisas em um gênero tal, etc.? E vocês sabem que certas coisas se nos revelam mais enquanto escrevemos que antes, quando tentávamos só pensar e falar. Um texto também nos procura.

7.    Por fim, até por causa da magia do sete e porque não levei oito livros, para não assustar as alunas, um comentário sobre o livro A universidade iluminista. Eis aí um ciclo que se fecha em um trabalho que continua: uma coletânea de gente da casa, da FACED, organizada por um professor de vocês, o Prof. José Carlos S. Araújo. Em dois volumes, temos um desfile de filósofos e cientistas nos últimos 250 anos: Kant, Schelling, Fichte, Schleiermacher, Hegel, Humboldt, Weber, Nietzsche, Max Scheler, Whitehead, Ortega y Gasset, Heidegger, Gramsci, Jaspers, Gusdorf... Ficaram tontas? Eu fico. Não é para menos. E ainda os recentíssimos Lyotard, Derrida e Habermas. A obra começa com as considerações sobre o conceito de “iluminismo”,  movimento também chamado de “esclarecimento” e termina com as recomendações de uma certa convenção de Bolonha, em 1999, sobre e para as universidades de hoje.

Com isso, encerro o relatório da primeira aula. E, ao contrário de outras áreas, outras audiências, aqui não precisamos nos esforçar para vender o peixe: a importância e a pertinência da filosofia estão bem assentadas e são bem aceitas. Restará a briga pelas tendências e ideologias, mas isso é assunto para outras aulas. De início, queremos trazer umas amostras de filosofia viva e de certa forma pura, ou seja, ainda não “aplicadas” – nem mesmo à nobre causa da educação. Sem pressa, aliás, que estou em fase de desacelerar, quando já não deveria inventar nada...

Prof. Dr. Bento Itamar Borges – Instituto de Filosofia - UFU


terça-feira, 6 de março de 2012

PROFESSOR SE SENTE UM RAPAZINHO DE 22 ANOS

Nota do editor: conforme cogitara este professor blogueiro, o PIPE continuará sem SHOW com novo elenco - ele e umas quarenta mulheres, as alunas da Pedagogia. Uau! Calma, galera. Pega leve, que vou de tiozão... Por enquanto, só texto, em dois capítulos. Depois voltaremos para editar isso aqui, com alguma imagem e um pouco de graça. Assim, será mantido o espaço - com crescente público e lista de seguidores, esperamos - para reflexões ou pelo menos impressões ligadas a essa prática de professor que já vai para uns 35 anos... Já estão chegando aí as filhas das filhas das minhas primeiras alunas. Benza Deus!
DE VOLTA À PEDAGOGIA
Disciplina GFI172 – Filosofia matutina
Aula 1 - dia 2 de março de 2012
PARTE I (para quem perdeu a primeira aula ou quer organizar informações)
Nem todas as aulas merecerão um relatório. A primeira, sim, precisa disso, pois nem todas as alunas estiveram na sala do 3Q naquela sexta-feira. Algumas chegaram de madrugada, ou seja, as 7:10. Eu já sabia, ao ler a lista, que teria uma turma só de mulheres. Isso é uma beleza, pois ao formar frases poderei dispensar o gênero gramatical masculino; direi: vocês estão convidadas, empolgadas, informadas, etc.
Primeiro dia de aula, professor vem com muita conversa fiada. E somos bons nisso: misturar informação relevante no meio de anedotas. E já lancei algumas teses e propósitos para a disciplina “Filosofia”, que ministrarei no curso de pedagogia. Eu, o ministro? Ou ministrante? E pensar que outros filósofos já ficaram conhecidos como “magister”! Passamos de mais para menos. Ok.  Então, nada de ministrar aulas; trata-se de dar aulas. Sim, dar e não vender, conforme brincava nosso colega de república, o Geraldinho, pois trata-se de uma universidade pública e gratuita, etc.

Cada aluna falou um pouco sobre si: se fez ou quis fazer outro curso superior, se trabalha, se tem tempo para ler. Nessa prosa, tirei uma média e atualizei minha impressão sobre o “perfil do alunado”, pois as convicções mudam após três décadas, bem como a natureza do trabalho. Em 1979, não havia telemarketing e nem “escolas” da prefeitura municipal para crianças de... quatro meses de idade. Sim, pois não são creches e as mães nem sempre trabalham. Aprendo bastante sobre o novo “conceito” de educação adotado em Uberlândia (e ainda nem sonhado na Suíça, parece). E aviso que essa é uma das ocupações prediletas do filósofo: o conceito (que só interessa enquanto história do conceito, etc.)

Brinco com a rara composição da turma: só mulheres. E, sem nenhum assanhamento hoje, digo que me sinto um rapaz de vinte e dois anos. E logo explico: é que em 79 fui professor de redação em um cursinho. Eram duzentas moças em uma sala. E eu ao microfone fazendo piadinhas. Enquanto isso, os rapazes estavam na quadra, horário de educação física. Depois, o troco: duzentos marmanjos na aula de redação e eu esgoelando para manter a atenção. E um bedel me vigiando, pois tinha que seguir a apostila. Coisas do tempo da ditadura, em escola dirigida por um delegado de polícia... Sim, a história da educação inclui as histórias pessoais. Logo pedi as contas e dei sorte: vim para a UFU, onde sempre me senti bem.

Em 1979, comecei a trabalhar na UFU e fiquei “lotado” no grande departamento de Pedagogia. Tínhamos lá uma equipe de Filosofia e outra de Metodologia da Pesquisa.  Depois de inúmeras reuniões, as “pedagogas” resolveram se separar (ou, conforme a retórica adequada de então, “redimensionar a unidade acadêmica”). Criaram um departamento de fundamentos da educação e outro de práticas. Um escândalo para quem antes apostava na unidade entre teoria e práxis. Mas, deixa quieto, pois o sistema segue sua dinâmica, etc.
E, embora, a filosofia pudesse ser encarada como um dos fundamentos da educação, nós, os professores de metodologia e de filosofia, aproveitamos a deixa, a porta aberta por nós todos, e resolvemos criar nosso próprio departamento de filosofia. Deu certo. Foi em 1987. De início, continuamos a oferecer disciplinas a quase todos os cursos da UFU. E logo montamos alguns cursos de especialização – um dos primeiros foi sobre o liberalismo.
Depois de implantado o curso de graduação em filosofia, em 1993 ou 94, afastei-me da área da educação. Nos anos 80, eu era mais entrosado com a temática, os autores da pedagogia crítica. Tivemos, aliás, uma rara oportunidade na UFU: a pedagogia montou um curso de especialização com os intelectuais exilados, que voltavam ao país, no governo Figueiredo. Gadotti, Jamil Cury, Miguel Paiva, Jeferson Ildefonso, Sanfelice, Afonso da Cunha e outros, que nos muniam de ferramentas para a crítica ideológica da escola reprodutivista.
Meus contatos com a educação foram diminuindo. E minha biblioteca foi desfalcada quando emprestei duzentos livros – quase todos de educação – a uma faculdade particular por aí. O novo dono do negócio bateu um carimbo de “doação” e... adeus. Já estive em banca de qualificação na pós da FACED  e publiquei pelo menos uma resenha e um artigo, em parceria com dois colegas, que poderemos adotar nesta disciplina, sobre educação em Habermas, filósofo alemão que conheço bem e ajudo a divulgar e criticar.
Voltando à história recente da UFU, em 2007, a filosofia passou a oferecer mestrado e, recentemente criou o turno matutino na graduação – e agora somos um Instituto, o IFILO.
Há alguns anos os dois departamentos de educação se reagruparam para formar a poderosa FACED, que hoje tem mestrado, doutorado e uma respeitável linha de pesquisa. Por fim, veio o curso de jornalismo, assumido por essa faculdade da UFU.
Uma cria dos tempos da pedagogia permanece com as duas áreas: a revista Educação e filosofia. Lembrei dos bastidores da criação desse periódico, do esforço do colega Prof. Geraldo Inácio, de minha atuação por tantos anos lá em várias funções e do sucesso da revista, hoje uma das melhores do país. (E logo vi que terei que trazer uns exemplares, pois nem todas as alunas sabem exatamente o que é essa importante revista acadêmica).

Na hora das perguntas, uma preocupação bem básica das alunas: se eu ficaria até o final do semestre. Resposta: sim, “se Deus me der vida e saúde”. Na verdade, eu me ofereci para assumir a disciplina em lugar de uma colega de departamento que pediu licença-maternidade. Mas venho de bom grado e pronto para cumprir a carga-horária e para deixar uma boa impressão – uma amostra – da filosofia. E o momento é bom: as alunas estão no terceiro ano, ou seja, já têm uma certa base teórica e ainda não estão afobadas com as monografias de fim de curso e a preparação para seleção de pós.

(to be continued - God be served...)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

EDUCAÇÃO NO BANHEIRO DA ESTRADA

Caros leitores e seguidores e ex-alunos dos PIPES,

este blog está engatando uma primeira pós-carnavalesca: o PIPE volta. Volta e meia pára. E volta.

E agora volta sem a disciplina PIPPE. Vamos tentar manter a conversa aqui com algum material de uma disciplina a ser oferecida no curso de Pedagogia da UFU. Se a turma quiser, etc. Veremos esta semana se vai rolar ou não assim.

No mais, o blog continuará a servir para uma prosa de professsor, observações pedagógicas e didáticas e midiáticas. E sobre o mundo do trabalho. Do filósofo, inclusive.

Por exemplo, isso aqui: o H do IDH é o mesmo do papel Higiênico...

Sucedeu que fui a um banheiro de beira de estrada e gostei dessa placa.

Voltei com a câmera e fui seguido por um frentista. Expliquei que eu era professor e usaria essa foto em sala de aula. E fiz as fotos. E não foi por mera curiosidade ou à cata de erros de pintores, não. Essa cota de papel serve de lição: tem gente que gosta de rolo. E leva o rolo de papel para casa.

Nesse meio tempo, surgiu um dilema que o ministro Guido Mantega tentou equacionar: como pode o Brasil ser a quinta potência em produção de riquezas hoje, se sair-se tão mal no Indice de Desenvolvimento Humano? Lá na 80ª posição, mais ou menos. No PISA também estamos longe dos melhores. O ministro tentou uma previsão, pois é disso que vivem os economistas: dentro de uns vinte anos, disse Mantega, poderemos alcançar o IDH compatível com o 5º PIB do mundo...

Well, eu diria: pelo menos uma geração, 25 anos, para os netos. E é claro que a escola pode ajudar a encurtar esse período. Alguém precisa dizer: é feio afanar o papel que o próximo usuário da privada usaria para limpar o traseiro. Muito feio furtar papel. E muito desconfortável improvisar uma solução, de volta ao jornal ou à folha de mamona...

Vamos aprender a deixar o papel lá, no WC da beira da BR ou nos banheiros da universidade. Pois como dirira o lider dos Gremlins: "pode até ser engraçado, mas não é civilizado" (no sentido Spielberguiano do termo).


Claro que ainda temos que lutar contra a corrupção, o desmatamento, a dengue. E é igualmente claro que estamos em tempos de paz e fartura no Brasil e que não queremos ser outro povo e nem morar em outro país. E não adianta mostrar os grandes defeitos dos outros, pois tem hora que só queremos nosso metro e meio de papel picotado. E não dá pra enrolar o rabo e sentar em cima, mormente se o dito cujo estiver sujo, afinal.

Chato falar disso, mas é que... eu prometi ao frentista.

Claro que o ministro Mantega sabe boa parte da solução do enigma: o Brasil melhorou muito e agora o Obama nos chama pra gastar na Disney, sem visto. Ok. Mas ainda falta dividir melhor a riqueza. Se é per capita, dá pra saber o quanto toca para superarmos a desigualdade salarial. Dinheiro, saúde, educação. O de sempre e udi sempre. Leva tempo e depende de atitudes e compromissos.

Nos anos 80, a esquerda gostava da imagem de dividir o bolo
(além da piadinha de palanque: o Delfim Neto engordou ao comer o bolo sozinho)

Nas florestas geladas da Sibéria, cada ocupante de uma cabana deixa lenha seca para o próximo estranho que eventualmente venha a procurar abrigo naquele inverno terrível. Parece bem mais fácil, então, deixar o rolo de papel ali no WC do posto de gasolina, onde paramos para verter a cerveja do carnaval, etc.

Dersu explica ao Capitán: "O fogo é gente. A água é gente."

(E educação é isso também, gente: pensar no outro, respeitar os bens coletivos.)

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

FACEBOOK É IGUAL ENCERADEIRA

Cera, enceradeira, cera, enceradeira...

Um anúncio fez sucesso na TV, anos 90. A moça anunciava um novo produto para fazer brilhar o piso. E desqualificava a enceradeira, um trambolho que polia a cera de carnaúba... Sumiram do mapa: a cera, a enceradeira e a mania de pisos brilhantes.

O Dr. Hans Zynza, da Universidade Nirgendwo, é um grande estudioso dos fenômenos de mídia na era digital e acaba de lançar um livro - por enquanto apenas em javanês - em que analisa o Facebook.

"Os americanos inventam essas geringonças, ganham dinheiro, livro, filme, Oscar e mais dinheiro, mas... eles mesmos não perdem muito tempo nisso. E os chineses? Na China e nas Arábias, por motivos que nem sempre apoiamos, essas redes sociais também são proibidas ou controladas." (Idem, Ibid.) 

Pois bem, no tempo do Orkut, os jovens brasileiros eram os mais viciados. Há uns cinco ou seis anos, a média de tempo gasto e desperdiçado chegava a cinco horas por dia, entre os jovens. E agora, o facebook.

Sim, todo mundo abre uma conta no facebook e depois gasta um tempo precioso para selecionar as ofertas de "amizade": esse sim, esse não, esse de jeito nenhum... E sobra pouco tempo para o conteúdo, que costuma resumir-se a um "olá!" e alguns "kkk..."

A máquina é muito besta e não sabe que um curso de línguas ou uma livraria não são exatamente o que em português chamaríamos de "amigo", termo que, aliás, anda prejudicado, melindrado por novos gêneros de relacionamento. De repente, colega, quando muito.

E os norte-americanos tem que saber que, por suposto, minha comadre Luisa é minha amiga. Já é. Não preciso incluí-la, pois o compadrio é uma velha e boa forma latinoamericana de amizade e consideração.

Talvez a lista de amigos no face entre no lugar dos "penfriends" de outrora, do jogo de postais, tipo pirâmide, em que você enviava dez postais e recebia mil - se todos levassem a sério.

Sim, vamos curtir o facebook, as long as it lasts, pois não demora e surge outra máquina com novas manias. E daí? Vamos usar o que está disponível, sem dúvida. Mas... e os livros, os parques, as visitas que podemos fazer nessas férias a sadios e doentes, parentes e estranhos?

Para não queimar o filme do Dr. Hans Zynza, que pode parecer um cara ultrapassado e chato, vamos citar uma figura e tanto, no próximo parágrafo, que olha de banda para o facebook. Voltem, caso queiram, ao início deste post. O Dr. Hans não é do tipo que gostaria de abandonar a enceradeira por saudades do escovão. Deus nos livre e guarde! O que era aquilo? Pelo contrário: assim como deixamos de polir o chão, também podemos mudar outras atitudes e até conviver com novidades e tradições. Podemos dar as caras no face todo dia, por alguns minutos, como quem bate ponto e diz hello, mas também ler alguns livros e jornais.
Voltar ao passado? Nem sempre.

E quem é o doidão, que tanto admiramos? Lobão, o roqueiro, o irreverente, o presidiário que organizou campeonatos de surfe no sabão. E que aos 50 anos lançou biografia. Em programa de TV, diz ao Serginho Groissman que leu mil coisas no tempo de escola (e que escola! Um colégio de padres, no Rio. Sim, senhores), mas teria lido menos se houvesse facebook e tuitter naquela naquela época boa para o rock. Não teria lido Platão, disse ele, como quem lamentaria se vivesse hoje a perder parte do tempo precioso.
Lobão não teria lido Platão, se perdesse tempo com facebooks e orkuts

Para encerrar (ops!, com dois rr), uma filosofada a favor das novas mídias. Descartes e Kant escreveram milhares de cartas, que ainda podemos ler. Nós, hoje escrevemos milhões de mensagens e torpedos e post, que dificilmente sobreviverão. Mas, nós podemos recortar uma carta de Kant e publicar aqui, de um jeito que as cartas não puderam e não poderiam fazer. É o progresso técnico e a vantagem de estarmos vivos.

A primeira indústria nos EUA é a guerra. A segunda é o entretenimento. Seria bom invertermos: mais discos e filmes e games que bombas e tanques, sem medo da indústria cultural. Pois bem, o cinema precisa de roteiristas e novas idéias. Há uns quatro anos, os roteiristas fizeram greve nos EUA. Quem diria? O trabalho não morreu. E a mídia toda precisa de conteúdo, inclusive de nossas leituras e reflexões.
Lobão cinquentão, que não sartô fora da conversa ilustrada

Fazer o quê, galera? Eu não estou de férias e... continuo por aqui matutando algo. Pois o PIPPE vive, tipo "the heat is on".